segunda-feira, 12 de novembro de 2012

7º Paraná Business Collection - Heroína

Quem acompanhou os posts do 6º PBC sabe o quanto eu amei o desfile do Alexandre Linhares (AQUI), estilista da marca Heroína, que tinha como tema a "camisa de força". Fiquei fascinada com o trabalho do Alexandre e com a criatividade com que ele executou seu desfile, com um discurso fantástico gravado pelo próprio. Pois no 7º PBC não foi diferente. Mais uma vez o local estava cheio e o público extremamente ansioso pelo desfile intitulado "Última Sessão), talvez o mais aguardado do Paraná Business Collection justamente pelo sucesso do anterior, que foi aplaudido de pé. Tanto é que Alexandre Linhares saltou do "Ideia Moda" direto para o line-up do evento.
As roupas apresentadas por Alexandre Linhares são peças de arte. Desta vez a inspiração foi o extinto cinema de rua, onde outrora se fazia arte. As cores remetem a esse cenário, além da mistura de tecidos; veludos, cetim, seda... Tudo de um jeito inovador que só a Heroína faz. Segundo Alexandre, "(...) a coleção mostra a impermanência das coisas, um desequilíbrio humano". Ainda nas palavras dele: "Usamos a roupa como suporte de uma expressão artística genuína. Neste momento, com esta ação, estamos propondo uma reflexão sobre a nossa cultura local, onde o que é 'globalizado' está corrompendo nossos valores e nossa cultura, não só brasileira, mas a de nossa terra natal também".






































Mais uma vez a música foi trocada por um belíssimo discurso do próprio estilista e, mais uma vez, fiz questão de transcrever alguns trechos para vocês. Outra coisa bacana? Ele começa falando do desfile anterior, para então continuar o pensamento. Vale à pena guardar um tempinho para ler:

"No capítulo anterior nós iniciamos uma discussão sobre a camisa de força e a sociedade. Continuamos a partir daí a narrativa. O ano: 1948. Não pensemos em algo retrô, nostálgico ou saudosista. Apenas remetemo-nos a um clima gelado e festivo de fim de noite numa fila de cinema da rua XV de Novembro, centro de tudo em Curitiba. Nesta fila reúne-se a família curitibana em pompa, com trajes de domingo num evento social dos mais importantes e esperados desde a última publicação do correio impresso. Da qual minha mãe não fazia parte ainda. (Nome da mãe) tem três anos e está começando a roer unhas, hábito normal nessa idade para o desenvolvimento de uma criança. Meu pai, Alexandre, mora perto dela, mas ainda não se conhecem e ele está dando dor de cabeça ao meu avô, também Alexandre, com as primeiras mentiras (...). Por aqui, é nas mãos de Dalton Trevisan que a cena artística se projeta, ao lado de Poty Lazzarotto, Cândido Portinari, Di Cavalcanti e Vinícius de Moraes com a revista "Joaquim", que teria mais uma publicação no mês que vem e que depois disso ninguém mais se lembraria dela. A menos que você seja um erudito interessado ela terá perdido a pose e publicações bem menos interessantes ocuparão seus rolos no próximo parque gráfico.
Também em 1948 surge o jornal "Folha de Londrina", primeira publicação impressa que me deu capa dois dias antes de alguém ter uma brilhante ideia e fazer o registro de algo que eu já vinha chamando de meu há pelo menos dois anos. Fomos parar em Londrina e fortunamente me lembrei do Sudoeste paranaense, mas não podemos esquecer que o foco é Curitiba (...). Aliás, não fomos parar, chegamos. Pararemos um dia. Inevitavelmente pararemos, como tudo parará, como até o sol parará e não mais projetará nada em lugar nenhum. Nem sombras. Nem esperanças. E descolorirá. Tudo. Descolorindo. Essa é a última sessão.
Falando em cinemas de rua, mas citando Cine Ritz em especial, ele presenciou boa parte do amadurecimento cultural e formação do que eu continuo tentando construir em meio a tudo que está... Tudo que está descolorido. Não foi no Ritz o cinema que eu fui pela  primeira vez. Eu assisti "Os Flintstones" com minha irmã Rita no Cine Plaza, que hoje infelizmente funciona como templo de comércio da fé. (...) Essa é a última sessão.
As cadeiras foram esvaziando como os dentes foram caindo da minha boca e a bilheteria tendo que lutar com outras novas, surgidas fora, importadas para cá. Indústria, por favor, não me engula. Consuma, mas não me engula. Eu tenho um sonho. O mesmo sonho que a Bibi Ferreira carregava quando veio à estreia do Cine Ritz de que falamos aqui, que teve seu fim ao lado ou embaixo da C&A, alma gigante do fast fashion que faz tão bem pra moda mundial, como o McDonald's contribui para a gastronomia e com a saúde pública. Hoje eu sou 3D. E o meu amor é tecnicolor. Essa é a última sessão, meu povo! Essa é a última sessão, meu irmão, corram! Corram todos, venham, essa é a última sessão! Corram todos, fujam, essa é a última sessão! Tudo descolorindo.
(...) E foi a Kátia Michelle que me deu capa, que contou que eu ando na linha e que eu costuro como acelero um carro de corrida rumo a um futuro que é meu. À eles, eles insistem em povoar minha cabeça, são pesadelos à noite, me assombram no escuro, me sussurram desaforos no ouvido e me fazem ter medo... À eles eu digo que eu não sou meu nome. E eles não são ninguém.
Mais uma vez eu me pego pensando no Sudoeste quando na verdade eu queria contar o que a Kátia escreveu. A sessão de "A casa de bebês", uma co-produção americana e mexicana, não teve nenhum espectador e o cinema partiu silenciosamente. A penúltima exibição às 17 horas de domingo registrou oito espectadores. Kátia Michelle diz que "Cine Ritz teve última sessão sem telespectadores", jornal Folha de Londrina, 26 de abril de 2005. Vale lembrar que no dia 26 de abril é aniversário da minha irmã Rita, que me levou no cinema pela primeira vez.
Quando não me são pesadelos, são sonhos. Não os sonhares. Não os sonhares da vida como eu converso com a minha amiga que me conduz em viagens próprias com instrumentos que ela recebe e compartilha comigo e colabora comigo e com o meu sonho. Ela é minha amiga, mas nós não frequentamos as mesmas festas. Eu tô falando dos sonhos que eu tenho de noite. No outro dia, a Iara me ajudava e metia na minha bolsa um relógio que não cessava e que não cessará. 
(...) Sabe o que eu penso? Eu penso que quando se pensa no que é tendência, que quando se busca algo que alguém tá pensando, então deixamos de pensar e deixamos passar por nós coisas que realmente importam e que poderiam ser verdadeiras. E penso também que o curitibano busca em outros centros o centro da sua rotação. Continuo esperando pelos meus amigos que foram embora. Às vezes eu não penso em nada também; isso me é tão difícil, parar e se concentrar no aqui e no agora, não permitir que nada disso me tire do agora. Nem o Sudoeste do Paraná, nem essa última sessão, nem que essa última sessão acontece a todo momento e que sempre temos últimas sessões que nunca mais acontecerão. Essa é a última sessão. Essa é a última sessão, meu povo. Essa é a última sessão, meu irmão. Corram, corram todos, venham! Essa é a última sessão! Corram, corram todos, fujam! Essa é a última sessão! Continua..."

Emocionante, fantástico, genial, merecidamente aplaudido de pé como no PBC anterior! 
Sem palavras para elogiar o bastante o desfile mais inteligente que o Brasil possui!
Bises, bises!

Ps.: As fotos são minhas, caso queira utilizá-las, dê os devidos créditos.

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